Você já viu uma mulher trabalhando de roadie? Pois existe!! E não são poucas! Já se tem notícias de algumas no Rio de Janeiro, Espírito Santo… E foi com uma roadie de Vitória/ES, Cris Suela, que tive o prazer de bater esse papo para a coluna TREME-TERRA!!
Como começou o seu interesse por “roadie”?
Eu tinha um fã-clube da banda Raimundos, e em seguida virei fã do O Rappa. Fiz amizade com eles e passei a viver nos bastidores de shows e festivais e comecei a gostar das coisas que eles faziam e eu pedia pra ajudar, e eles deixavam, pois na época era mais fácil, por que a banda era menos conhecida. Hoje a amizade aumentou, mas os obstáculos também.
Como foi o trampo mais foda?
O trampo mais foda foi da banda Sporro Grosso, carregando equipamento dentro de ônibus circular, neguim de olho nas paradas, descemos do ônibus correndo pra não ser assaltado. Subia umas quebradas sinistras, o local era pequeno, mas muito foda. Aí me juntei com eles, que fizeram essa oficina de roadie comigo. A música de trabalho se chamava “Maria Palco”, kkkkkkkkk. Eu acabei naquela noite de roadie a cantora em participação especial na música.
Você trabalha em outra profissão sem ser “roadie”?
Sim, trabalho numa empresa de produtos químicos.
Por que você é rodie?
Teve uma época que desisti de muitas coisas porque as pessoas me desanimavam dos meus sonhos e projetos, até mesmo esse de cair na estrada foi um que pelas dificuldades em ser mulher eu fui deixando de lado. Hoje tô retomando meus projetos aos poucos, embora meu trabalho seja totalmente o oposto. Teve a parada que quando adoeci também adoeci trabalhando num momento que uma banda me aceitou sem se importar em ser mulher e aí não pude trabalhar por causa da cirurgia. Com certeza 3 meses internada sem expectativas de sair viva.
E sons? Quais os que você mais curte?
Parei no tempo. Acredita que eu ainda ouço O Surto, Raimundos, Planet Hemp, O Rappa… Não tem como né, eu tento parar mas não consigo, kkkkkkkk. Curto muito algumas bandas capixabas, amo música brasileira, não curto muito essas paradas de música internacional não. Até ouço mas pra escolher fico com minha cultura , as coisas do meu pais, do meu estado. As vezes até me arrisco num Roberto Carlos. Ontem mesmo tava ouvindo Gal Costa.
Teve algum show especial que você gostaria de contar?
Um dia tive o prazer de trampar com o Arnaldo Antunes num show aqui no estado. Fiquei sabendo que ia acontecer o show e resolvi fazer contato com a produção pra eu poder assistir a passagem de som. Eles me barraram por quase 15 dias e todos os e-mails dizendo “não”. Eu voltava pedindo, parecia até um teste. Aí disse que não precisava nem chegar perto dele, que só queria mesmo ver a passagem e trocar uma ideia com a equipe técnica. Só que isso teria que passar pelo Arnaldo a autorização, aí ele aceitou e o pessoal da técnica também. Tiveram uns probleminhas que sempre acontecem, mas foi muito bom, agradeci muito, fiquei no pá com o Demétrius que em meio a toda loucura tirava tempo pra me dar explicações de como tudo funcionava. Ficaram surpresos de uma mulher querer ser roadie. No final do show fui agradecer a técnica e a produtora deles e fui chamada ao camarim, que o Arnaldo queria me conhecer. Fiquei sem palavras diante das coisas que ele me disse e aos elogios por ter sido de total profissionalismo quando me negaram pra assistir a passagem de som e eu insisti e eles viram que eu não estava ali como fã, ou uma Maria Banda, mas sim como profissional.
Tu trabalhou com quais bandas? E fazendo o que?
Trabalhei com Kanabaus e Na Vibe que são duas bandas de reggae daqui, e com banda de um amigo que se chama Esporro Grosso. Fazia de tudo um pouco, a galera sabia que eu levava na responsa, então sabiam que podiam confiar. Aí ia pra percussão, guitarra, carregava equipamento e não tava nem aí… carregava peso na moral, afinal, eu tava fazendo algo que eu gostava e muito. Quase até apanhei do fã-clube do Kanabaus, que as meninas não aceitavam como que uma mulher trabalhava como roadie. Uma vez um roadie do O Rappa comentou comigo que conhecia duas excelentes roadies do Rio, mas não as conheci.
Deixa seu recado pras meninas e mulheres que tão querendo entrar no mercado da música, e por que não como roadie!
Entrar no mundo da música como cantora acho fácil. Acho muito mais difícil entrar no mundo da música como uma roadie. Então, siga seu coração, faça o que tiver vontade, a vida é uma só e temos que proporcionar a ela o que nos faz bem. Esqueça os preconceitos, as dificuldades, os obstáculos, eles sempre vão surgir, junte as pedras do caminho e construa um castelo de realizações… e logo ali nos esbarramos MULHERES e vamos trocar nossas experiências.
*Franklin Roosevelt é Produtor musical, baixista e humorista.