Segue na íntegra entrevista feita por Cleo Lima, Marcelo Panela e Itaércio Porpino, do site parceiro SOLTO NA CIDADE.
A Jovem Guarda vai a forra

Foto: Jerimum Cultural
É tarde da noite. Enquanto parte da vizinhança dorme e, na rua, as luzes dos carros borram o asfalto, na sacada do apartamento onde está morando desde o ano passado, no alto de um edifício em Petrópolis, um senhor de 60 anos, de ar jovial, nos entretém durante quase duas horas falando de música e política. Esse senhor tem muito a dizer.
Coisas até que estavam engasgadas. Seu nome de cartório: Gileno Osório Wanderley de Azevedo, e o artístico, Leno. Sim, sim… É o do par Leno e Lilian da Jovem Guarda, que nos anos 60 fez grande sucesso com “Pobre menina” e “Devolva-me”. A nossa conversa é muito sobre aquele período – a rusga com o pessoal da MPB (”chato pra cacete!”, segundo Leno), mas também sobre o presente.
Leno continua produzindo e tocando. No início deste mês, aliás, ele fez show no Aprecie Pub, em Ponta Negra, para divulgar seu CD mais recente, “Idade Mídia”, de 2006. É seu primeiro trabalho com músicas inéditas depois de quase 15 anos (o obscuro “Vida e Obra de Johnny McCartney”, uma co-produção com Raul Seixas, foi gravado em 1971, mas acabou sendo censurado e só foi lançado em 1995. Leno também fala sobre isso nessa entrevista. Bom, vamos então a ela:
Solto: Fale um pouco de sua infância. Você nasceu em Natal, mas foi para o Rio ainda pequeno, não é isso?
Leno: O pessoal pensa que meu pai estava de passagem e que eu só nasci em Natal, mas eu tenho raízes fortes aqui. Meu pai era militar e serviu aqui na guerra, e minha mãe era de Natal, da família Wanderley. Fiquei aqui até 54, saí com 4, 5 anos. Depois disso fomos morar no Rio, em Copacabana. Fui criado ali, na divisa entre Copacabana e Ipanema, dos 5 aos 12 anos. Depois disso moramos no Pará, no Mato Grosso… Então voltamos pra Natal, ficamos na Ribeira, onde tinha um quartel do Exército. Foi nessa época que surgiram os Beatles. Eu estudava no Marista e já conhecia rock, ouvia muito Elvis, Little Richard…
Solto: A ligação com a música e o rock começou cedo, então?
Leno: Sim, sim. Minha família, meus tios tinham muita relação com música. Era mais aquela coisa de violão, seresta… Mas, ao mesmo tempo, o pessoal da minha turma já ouvia o rock´n roll. Pra onde a gente se mudasse eu carregava meus discos embaixo do braço. Eles eram meus companheiros, Elvis e tal. Quando os Beatles estouraram, eu já tinha uma certa bagagem, ainda da época de Copacabana, aquela coisa da juventude transviada.
Solto: Foi também quando você passou a se aventurar a tocar e cantar?
Leno: A história de aprender música foi mais aqui em Natal mesmo, com meus 13, 14 anos, quando ganhei meu primeiro violão e formei a primeira banda de rock dessa cidade, o “The Shouters”. O nome era, claro, uma referência a “Twist and shout”, música que os Beatles gravaram no primeiro disco deles.
Solto: Como foi seu reencontro com Lilian?
Leno: Eu estava prestes a fazer 16 anos e fui morar de novo no Rio, no mesmo prédio dos tempos de infância. Chegando lá, reencontrei minha amiguinha daquela época, das brincadeiras e tal. O nome dela era Lílian. Esse prédio que a gente morava era pertinho da TV Rio, então a principal emissora de lá. Já existia o programa do Carlos Imperial e também um programa chamado Hoje é dia de rock, que acontecia no sábado à tarde…
Solto: Era o embrião da Jovem Guarda?
Leno: Era a Jovem Guarda se formando, mas ainda sem o batismo. Eu me lembro do dia seguinte à minha chegada no Rio. Eu acordei e fui ver a Lílian. A gente começou a conversar e ela me contou que estava namorando o guitarrista de um conjunto… Era o Renato! O do Blue Caps! Nesse mesmo dia o Renato apareceu por lá e nós ficamos amigos, tocamos violão, essas coisas. É engraçado que com um tempo as pessoas pensavam que eu tinha algo com a Lílian…
Solto: E tinha?
Leno: Não, nós sempre fomos apenas amigos. O Renato também ficou muito meu amigo nessa época. Foi ele, inclusive, quem incentivou a gente a formar a dupla. Por esses tempos, o grupo do Renato se apresentava muito no programa do Carlos Imperial, que se chamava Brotos no 13 e ia ao ar de segunda a sexta às 17h. Quem também estava sempre por lá era o Roberto (Carlos), o Erasmo, Wanderléa, Golden Boys… todo mundo começando.

Leno, Raul e banda
Solto: Foi aí que nasceu a dupla Leno e Lilian?
Leno: Pouco depois disso, a CBS, gravadora do Renato, convidou a mim e a Lílian para um teste, através do Evandro Ribeiro. Nesse teste nós levamos três músicas: Pobre Menina, Devolva-me e Words of Love, essa última gravada pelos Beatles. Evandro ficou alucinado pelo material. Na semana seguinte, nós gravamos o compacto com “Devolva-me” no lado A e “Pobre menina” no lado B. As duas músicas estouraram. Esse compacto simples foi o que mais vendeu na história da música brasileira!
Solto: Como foi o processo de “separação musical” entre você e Lílian?
Leno: Aconteceu em 1967. O problema foi a diferença de temperamento mesmo. Lílian tinha uma visão muito romântica das coisas. Era um lance muito “conto de fadas”. Eu tinha uma visão mais profissional, queria ensaiar, compor. Quando esse desgaste começou a ser mais aparente, a gravadora me convidou pra ser artista-solo. O estopim foi num dia que a Lílian faltou a um programa de televisão onde a gente ia receber um prêmio. Estávamos em primeiro lugar na parada da TV Rio e simplesmente a Lílian não me aparece! Acabou que quem me socorreu foi a Martinha, outra voz de muito sucesso na Jovem Guarda. Aí não tinha mais clima e o Evandro me convidou pra cantar sozinho.
Solto: O público reagiu bem à separação da dupla? Houve muita cobrança?
Leno: Por incrível que pareça, não. Eu até me surpreendi. O público foi muito receptivo comigo. Talvez até por pensar assim: “Ah, coitadinho do Leno… A Lílian abandonou ele pra ficar com o Márcio…” (risos). Eu confesso que não achei ruim de jeito nenhum! (risos). Meu primeiro lançamento como artista solo foi “A pobreza”, que, inclusive, vendeu mais que “Pobre Menina”. Eu continuava escrevendo músicas mais inocentes e tal, como “A festa dos seus 15 anos”. Foi quando veio o AI-5… Então eu percebi que precisava passar algo mais com a minha música.
Solto: AJovem Guarda foi um movimento que se caracterizou por não ter engajamento político. Você se vê como uma pessoa politizada?
Leno: Totalmente!
Solto: Existia algum tipo de pressão das gravadoras para que vocês não falassem de política?
Leno: Não, não. A Jovem Guarda era um movimento ao mesmo tempo romântico e questionador. A gente era cabeludo, as meninas usavam mini-saia. Teve também aquele lance do tabu com a virgindade das meninas, a Wanderléa, a própria Lílian. A gente mexeu muito mais com a cara do Brasil através desse romantismo, como os próprios Beatles fizeram na Beatlemania, do que tratando de política. Os próprios Beatles mudaram o mundo sem precisar falar de política naquela primeira fase.
Solto: O problema, então, era porque vocês não falavam abertamente?
Leno: Era. E aí começou a acontecer uma cobrança. Mas, de qualquer maneira, assim como nós não gostávamos da ditadura, também não tínhamos nenhuma identificação com o que aquele pessoal chato pra cacete da MPB queria, que era o comunismo soviético. Eu lembro da época da TV Record. Eles apareciam lá, Elis Regina, Chico Buarque… Veja bem, o Chico é um compositor fantástico, mas era chato demais com essas coisas! Diziam que a gente tinha que se engajar do lado deles. Ora! O lado deles era Cuba, Fidel Castro, Stalin! Pôxa, o Stalin foi um dos maiores genocidas da história, quase um Hitler! A diferença é que era de esquerda, mas pra mim é tudo a mesma porcaria se é ditadura.
Solto: E tinha a história de que eles eram radicalmente contra o rock…
Leno: Esse pessoal da MPB era totalmente intolerante conosco. Nós éramos chamados de alienados o tempo todo por essa MPB universitária dos festivais, que nem sequer nos dirigia a palavra. Naquela época guitarra elétrica era um tabu. Teve uma passeata, em 67, de artistas como Chico Buarque, Elis, contra a Jovem Guarda. Eles diziam que era contra a guitarra elétrica. Mas a guitarra elétrica quem usava era a gente. O Gilberto Gil estava na passeata. Aí veio a Tropicália usando guitarra elétrica…
Solto: E por causa disso a Jovem Guarda ficou com uma imagem de conformismo.
Leno: Pois é! E o Roberto, nosso representante máximo, era muito sossegado. Nem se dava ao trabalho de responder esses questionamentos. E isso não era legal, talvez ele devesse se posicionar um pouco mais.
Solto: Pouca gente sabe que você tocou com Raul Seixas. Como conheceu ele?
Leno: Ele havia chegado ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, para acompanhar Jerry Adriani. Mas aí sua banda, Raulzito e os Panteras, acabou e ele terminou ficando no Rio. Eu fui o primeiro cara a gravar uma música dele, em 68. Raul só foi estourar em 73, com “Ouro de Tolo”. No Rio eu dei guarida pra ele, chamei ele pra tocar comigo, na minha banda. Foi aí que houve uma ruptura enorme na minha carreira. Eu vinha de um disco super romântico, “A Festa dos seus 15 anos” (1970), e em seguida fiz “Vida e Obra de Johnny McCartney” (1971), em que Raul entrou como parceiro nas letras. Aí a censura veio e prendeu oito faixas. A partir daí, Raul se empolgou para cantar.
Solto: O que esse disco continha?
Leno: As letras eram mais críticas, falavam de imposto de renda, de injustiça social, da falta de liberdade…
Solto: O que o levou a sair da linha romântica para uma mais contestadora?
Leno: Foi uma inquietude da minha parte em relação com a falta de verdade no Brasil, mas também tinha muito a ver com o amadurecimento do rock lá fora. O rock no começo era uma coisa divertida, depois foi ficando cada vez mais importante na cultura mundial. Eu estava amadurecendo também. Era uma mudança cultural, existencial e refletiu na música. Quando o disco foi censurado, saí da gravadora e fui pra Philiphs. Depois a CBS me convidou pra voltar como produtor em 1972. Foi então que a gravadora sugeriu: “por que você não faz um retorno com Lilian?” Aí gravamos dois discos.
Solto: Teve muita pressão para a dupla voltar?
Leno: Não, não, eu queria fazer. Foi numa boa. Eu já tinha feito muito sucesso fora, já tinha me auto-afirmado como artista solo. Por não ser uma coisa obrigada, deu vontade de fazer.
Solto: Como vocês lidavam com a questão das drogas?
Leno: Até 68, não se falava em droga, não rolava. Nem chegava às nossas festas. Mas a partir de 69, 70, começou a rolar. No Rio, rolava muita maconha, mas cocaína nem se ouvia falar. A primeira vez que vi um baseado estávamos eu, Raul e um primo dele surfista. Foi ele quem chamou a gente pra casa dele, em 1970. Aí a gente experimentou. Mas na época da Jovem Guarda, era um uisquinho, mais pra aquecer a voz. A gente gostava mesmo era de sexo. A droga da gente era sexo. A gente queria era transar.