Entrevista: Calistoga (Natal / RN)

Foto: Calistoga por Rafael Passos
Por Rodrigo Cruz
Uma das bandas potiguares que está com um trabalho autoral mais sério e que mais cresce na cena, Calistoga, está no meio (na verdade, no final) de uma turnê pelo Sudeste. Conversei pelo Messenger com Gustavo Rocha (baixo) e Dante Augusto (vocal) nesta terça-feira, 21. Falamos um pouco de tudo: a turnê, planos futuros, novo trabalho, bandaas independentes, circuito Fora do Eixo… Mande bala na leitura!
RockPotiguar: Em todo esse tempo de banda, vocês já tinham projetado (de pôr no papel mesmo) uma bela turnê como essa?
Gustavo: Bom, sempre foi uma meta da banda tocar em São Paulo. No começo a gente não se achava maduro o suficiente para encarar uma viagem como esta. Quando a gente começou a gravar o “Still Normal” vimos que a banda já estava madura e que precisava começar a andar por novas terras. Começamos os contatos pelo Sudeste e acabamos conseguindo uma série de show que estão sendo muito importantes para a banda. A gente só não imaginava que iríamos conseguir tantos shows.
RP: E os custos? A banda conseguiu algum apoio?
Gustavo: Conseguimos. Teve um investimento inicial da banda para as passagens, depois a gente foi fechando ajuda de custo com todos os shows (dentro da realidade de cada lugar / produtor). A venda dos CDs e camisetas também estão ajudando muito. Como essa é nossa primeira tour para o Sudeste a gente não estava muito preocupado com o dinheiro, sabíamos que iríamos gastar uma grana extra, mas tudo seria por um bem maior para banda. Então posso dizer que gastamos um pouco mais do que estamos recebendo, mas já está valendo todo o investimento.
RP: Ao todo são quantos shows? E como são os lugares?
Gustavo: A tour ao todo vão ser 14 shows. Até agora já foram 10 shows e tocamos em todos os tipos de lugares, pequenos, grandes, conhecidos, desconhecidos, ocupações e por aí vai… Isso tá sendo um ponto muito legal da tour, pois estamos tendo contato direto com todos os tipos de público e de condições de show. Vejo isso como um ponto que soma muito, pois a maioria dos nossos shows foram no Dosol, rsrsrsrs.
RP: Como a galera tem reagido aos shows?
Gustavo: Então, como eu disse na resposta anterior… Estamos tocando em vários lugares diferentes, para públicos diferentes. Mas dá pra ver uma reação positiva da galera, sempre tem gente vindo conversar depois dos shows, comprando CDs e nos elogiando. Um exemplo que posso te dar é que fomos para Serrana fazer um show e acabamos fazendo mais dois shows lá e em uma cidade vizinha. Acredito que estamos agradando e o resultado está sendo dos melhores. Tem até negos cantando nossas músicas em shows. Além de nossos amigos que estão acompanhando a tour, isso deixa a banda um pouco mais segura na hora de tocar.
Dante: Tá falado!
RP: Como está sendo o repertório? Mais músicas das novas influências ou coisas dos trabalhos antigos também?
Gustavo: O Calistoga não tem repertorio. A gente sempre vai escolhendo conforme vai rolando o show, tudo depende de como a galera esta reagindo. Mas sim, a base do repertorio é o “Still Normal” que é o nosso trabalho mais novo. Dependendo do local tocamos ele inteiro, e várias das nossas músicas mais antigas e mais três covers para rechear os shows.
Dante: É, a gente tá priorizando mostrar o trabalho novo e o resto a gente vai soltando no show de acordo com o que a gente sente.
RP: O que a banda tá tocando de cover?
Gustavo: Três das nossas maiores influências: Hot Water Music, Fugazi e At The Drive-in.
Dante: Os covers tão fazendo bastante sucesso por aqui também, são bandas conhecidas por aqui.
RP: Qual a maior dificuldade que a banda está enfrentando nessa tour?
Gustavo: Carregar todas as nossas tralhas, rsrsrsr.
Dante: Isso é verdade. cada um precisa de mais dois braços “urgente”. A gente não tem carro aqui, estamos na base do ônibus, metrô e trem e com muito equipamento pra carregar.
RP: Qual é o objetivo principal da banda nesses shows? Contatos com produtores, ficar conhecida pelo público…
Gustavo: Bem, o objetivo principal é mostrar a banda. A gente queria saber como seria a reação do público por aqui… São Paulo é bem conhecida por ter um público mais frio, a gente queria passar por esta prova além de ter a chance de mostrar nosso som para públicos diferentes. Contato e público são consequências de todos os shows.
Dante: Passear e tocar. São as férias perfeitas, hehehehe.
RP: Já que estamos falando de circular: o que vocês pensam a respeito da Fora do Eixo Discos, em distribuir os discos das bandas dos coletivos através de toda a rede no Brasil?
Dante: Acho ótimo, dá uma organizada nesse lance da distribuição dos discos das bandas independentes. A internet facilitou todos os processos da música e deixou acessível às bandas independentes. O quesito da distribuição dos lançamentos físicos tinha ficado meio desorganizado e difícil de ser feito, seja pela dificuldade de dar saída nos discos que alguns selos ou distros enfrentam, seja pelo tamanho do país, acho que isso vai organizar bem mais e tornar mais fácil a circulação das bandas interessadas.
Gustavo: Acho que só vem a somar, pois teremos mais pontos de distribuição e acaba dando mais força para todos os envolvidos. A gente tem três pessoas envolvidas com o Coletivo Noize que é integrado ao Fora do Eixo. Se temos mais de 40 pontos em todo o Brasil com pessoas comprometidas em trabalhar sério, acho que isso só vem a somar.
RP: O Cavalo, das Velhas Virgens, lançou um livro, “Seja Independente”, que incentiva às bandas a não precisarem das gravadoras, que as mudanças que estão vindo descentraliza tudo. Vocês ainda se seduzem pela ideia de “gravadora” ou acham que as bandas podem sobreviver sendo independentes?
Dante: Acho que podem e devem. Cara, isso de ficar esperando uma gravadora cair do céu é muito chato e improdutivo. Você tem que meter a cara mesmo e fazer tuas coisas. Se você quer tocar é isso que você tem que fazer, mas se você quer ficar famoso é outra história, acho que o que deve mover o músico é o desejo de produzir musica e estar sempre em contato com ela, e hoje em dia da pra fazer isso sendo independente. Então por que não fazer?
Gustavo: Tô com o Dante.
RP: Além de shows e da distribuição do “Still Normal” com o público e da crítica positiva, como está sendo esse trabalho com a mídia? Está sendo feito algo nesse sentido?
Gustavo: Não. Como o CD ficou pronto e a gente já saiu viajando na mesma semana mal tivemos tempo para manda-lo para revistas e sites. O que deu pra fazer foi entregar na mão de todos os produtores presentes no Festival Noites Fora do Eixo em Recife. No nosso pré-lançamento, e quem a gente tá conseguindo ver no meio da nossa viagem. As mídias locais (de Natal) direcionadas ao público independente todas receberam.
Dante: A única coisa que rolou foi uma entrevista para o pessoal da Travolta Discos após o show da Inferno. Foi tudo filmado e vai sair na net em breve.
Gustavo: A maior divulgação em mídia será feita depois da nossa tour.
RP: E pra isso entra o coletivo de novo, nessa assessoria, ou será feito tudo dentro da banda?
Gustavo: Tudo será feito com a banda e em conjunto com o Coletivo.
RP: O disco ficou muito bom. Mixagem e masterização foi tudo com a banda?
Gustavo: Com a dupla, Dante Augusto e Henrique Rocha. Fale mais aí Dante.
Dante: Fui eu e Gela (Henrique Rocha). Fizemos tudo. Junto com a banda, claro. ouvíamos as opiniões de todos e tentávamos fazer chegar ao melhor possível. A gente gravou (exceto a bateria que foi no Estudio R com Rafael Bulhões) lá em casa. Ficou bem satisfatório para nós.
RP: Uma mesinha de som e uma placa de audio boa fora o suficiente (além da habilidade humana, claro!)?
Dante: Exatamente isso. Uma placa de som legal, uma mesinha pequena e o pc. A gente tem um amp de guitarra valvulado que ajudou bastante nesse quesito também. Usamos também as guitarras que usamos nos shows e nossos já e cada vez mais famosos pedais. Alguns plugins de áudio que a gente confia e pronto. Mixamos e masterizamos tudo. Sem referências adequadas, apenas um fone de ouvido legal e caixas de som comum mesmo. Bem na tora. Com o que a gente tinha conseguiu isso aí.
RP: Na sua opinião, esse trabalho caseiro deixou a desejar algo para algum estúdio de pequeno ou médio porte? Ou isso pode ser um exemplo para as bandas fazerem um trampo legal gastando o mínimo?
Dante: Cara, talvez tenha ficado um pouco viu? Mas não achei tanto quanto ouvi falar por aí, achei muito honesto se colocado no nível de estúdio de médio porte e surpreendente se colocado no nível caseiro. Acho que estilisticamente por não ter ficado tão perfeito casou com a proposta da banda em cheio e acho que serve de exemplo sim pra qualquer banda. O mundo tá cheio de gente te falando o que não fazer, mas você só vai saber se dá certo se fizer, se não rolar você vai e faz de outro jeito.
RP: Vamos voltar um pouco mais a Natal: a banda tem feito excelentes shows, muitas vezes pra um público que não é da banda. Essa competência está fazendo com que a banda tenha um público maior? Como vocês vêem isso?
Gustavo: A gente tem uma preocupação grande com ensaios e tentar sempre melhorar a qualidade da banda, e como a gente vem fazendo muito show isso tá ajudando a gente ficar muito entrosado, estamos colhendo alguns frutos de muitos sacrifícios que fizemos durante a vida da banda. E ver que aos poucos estamos conquistando mais o público de Natal é muito satisfatório. Com certeza shows grandes como o Festival Dosol dão uma força grande para qualquer banda, no meu ver ele é o maior festival dedicado a bandas independentes da cidade. Como lá vai muita gente e o som é bom, as bandas acabam tocando com mais vontade e conseguem mostrar o seu melhor e o que melhor produziram durante o ano. E no caso de Natal, acho que o fim do clico fica no fechamento do festival Dosol, onde você acaba acompanhando o que tem de melhor na cidade e outras bandas que estão circulando pelo Brasil.
Dante: Cara, a gente tenta dar o máximo no palco e se esforçar com ensaios e outras ações como reuniões e conversas pra que na hora do show a gente possa dar o melhor. A gente busca crescer musicalmente buscando novas influências e novos modos de tornar nossa música mais interessante pra nós mesmo e pro público. Eu acho que isso influi sim, quando alguém que nunca viu a banda vê a gente no palco pode perceber esse tipo de coisa inconsciente e começa a de alguma forma dar valor. Vou me ausentar por um segundo, por que o cara onde estou hospedado vai usar o PC rapidinho, mas já volto.
RP: Ok. Vocês estão separados? Digo, cada um em uma casa diferente?
Gustavo: Estamos em três casas. Eu e o Dante em uma, Henrique está sozinho com amigos nossos e o Kalango e o Daniel em outra casa. No momento eu tô no interior da minha família fazendo uma pequena visita. Mas estamos todos no mesmo bairro lá em São Paulo.
RP: Essa turnê é mão-dupla? Ou seja, teremos novidades do RJ e SP por aqui depois?
Gustavo: Vai rolar o Vivenciar (RJ) aí em Natal esse fim de semana, eles tocaram com a gente no Rio e nos ajudaram por lá. Quem deve fazer uma visitinha por ai é o Eu Serei a Hiena (SP).
RP: De todas as bandas que vocês tocaram juntos nessa viagem, você pode citar algumas como destaque?
Gustavo: Sim, até agora… Pés Descalços / RJ, Vivenciar / RJ, Canastras / RJ, El Efecto / RJ.
RP: Só bandas do RJ?
Gustavo: Canastras a gente tocou aqui em Sao Paulo. E tem uma banda de Sampa, é que eu não lembro direito o nome. Pingüim alguma coisa…
RP: Quais os planos depois da volta a Natal?
Gustavo: Começar a produzir o próximo disco e fechar uma tour no Nordeste.
RP: Festivais?
Gustavo: Temos alguns convites. Vamos esperar eles se concretizarem para começar a anunciar.
RP: Aqui já deu. Algum agradecimento?
Gustavo: Agradecer pelo espaço no RockPotiguar e por todo apoio que o pessoal de Natal está dando para nós, tá sendo muito foda isso e espero que a galera se junte mais para que as coisas comecem a funcionar cada vez melhor.
Ouça Calistoga: www.myspace.com/bandacalistoga