Coluna: RIFF – O Twitter & O Biquíni Fio-Dental
4/08/2009
por
Bruno Bruce
“Eu cansei da Internet. O Twitter é ridículo e há informação demais por aí. Celebridades, astros do cinema e do rock estão perdendo sua mística.”
(Nikki Sixx – Motley Crue. Fonte: whiplash.net)
Não tenho tempo nem a paciência adequada para discorrer longamente a respeito do custo-benefício social da internet. O texto acima ilustra parte do que penso a respeito do mundo conectado, plugado ou wireless. Certamente está matando a indústria fonográfica mundial. Aquele antigo molde comercial das gravadoras, de mão única, impondo tendências, acabou. Desde o Napster (alguém ainda lembra dele? Parece que foi há tanto tempo) o conceito de comprar e vender música deu a maior guinada da história. Que se fodam as gravadoras & grandes corporações. Nunca me deram nada grátis e eu nem queria nada de graça, pois odeio dever favores. Trata-se de um comércio e elas migrarão para outras (novas) formas de ganhar dinheiro, como já estão fazendo com o game Guitar Hero, músicas para celular et cetera. O que me entristece é a perda do mito, tão necessário em várias esferas. Exatamente como disse Nikki Sixx. A quebra das distâncias geográficas, a fácil acessibilidade aos grupos ajudou a enterrar um restinho de mágica que ainda houvesse neste mundo globalizado. Mas eu já vinha comentando isto com amigos (que nada entenderam) há tempos. Todos precisam de uma ‘porta na cara’ de vez em quando, de uma barreira impondo: “Aqui você não entra, daqui você não passa!”. As bandas de hoje são como mulheres de biquíni fio-dental na praia, que, de tão desnudas, nada deixam para a imaginação!
Na era mesozóica do Metal escrevi para o Iron Maiden, do meu quarto, uma carta destinada ao fã-clube do grupo. O endereço deles estava na contra-capa do vinil Piece Of Mind. Era necessário papel, caneta, um inglês razoável e a vontade de ir aos Correios, pegar uma fila, selar a carta e, finalmente, enviá-la com os Response Coupons. Você pagava para os caras retornarem sua missiva! Hoje qualquer moleque curioso tem pleno acesso a tudo que cerca um grupo, com um mínimo de esforço. Onde estão, o que comeram, o que (pretensamente) estão fazendo naquele exato momento; enfim…perdeu a graça! Isso também contribuiu para matar o Heavy Metal, estilo tão apegado ao mundo surreal, seja do Black Metal die hard do Venom ao Metal RPG (Roller Playing Game) do Blind Guardian. Resta pouco para a imaginação quando meus ídolos estão na frente de uma tela de LCD a responder e-mails ou alimentar um website com todas as minúcias & particularidades de sua vida.
De modo regular leio matérias com integrantes de bandas receosos quanto aos avanços tecnológicos, principalmente no que diz respeito aos sites de relacionamento, nos quais as gravadoras ou managers ’sugerem’ que sejam feitos perfis pessoais para agradar a nova geração de consumidores. Acreditam ser uma forma de aproximar o artista do público. Ao meu ver, para o ambiente do Heavy Metal, tem um efeito contrário, marcadamente destruidor. Proximidade demais estraga a mística de uma banda de Heavy Metal.
Há uma esperança! Está sendo criada uma nova horda de rebeldes. A música extrema já chegou ao seu limite. A nova fronteira para os grupos será manter a aura de inacessibilidade, indo contra todos os ditames comerciais em voga. Isso já é realidade para alguns e deverá se transformar num pièce de résistance dos indivíduos mais misantropos.
A propósito: fui respondido cerca de 4 meses depois pelo Iron Maiden FC. Enviaram um cartão de Natal exclusivo e votos escritos a mão. Guardei-o, com orgulho & carinho, por anos.
*Bruno Bruce renegou o batismo cristão dos seus pais nos primeiros minutos da música Deathrider (Anthrax) gravada numa fita-cassete por um roqueiro natalense. Como headbanger viu modas musicais surgirem e morrerem como moscas num verão.
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3 Comentários »



agosto 10, 2009 em 1:51 AM
Realmente voçe foi muito feliz na sua colocação.Proximidade demais estraga até casamento,e a “privacidade” traduzida,digamos,numa distancia razoável,é necessária para que se mantenha acesa a chama da individualidade mística.Em tempos de realidade virtual,o encurtamento das distancias trouxe benefícios de um modo geral.Mas em contra partida,e musicalmente falando,jogou por terra aquele pedestal de inacessibilidade onde colocávamos nossos ídolos!Aquela verdadeira “adoração” que tínhamos pelos nossos heróis,perdeu um pouco da magia diante de um “click” no mouse.Na era pré-virtual,juntávamos a mesada de semanas para poder comprar um vinil,e hoje são inúmeros os sites e recursos disponíveis para baixar músicas da “internet”.Aos artistas,financeiramente viver de shows é mais vantajoso do que produzir novos CD´s,tendencia essa que termina por deixar o talento preguiçoso.Não que eu seja saudosista á ponto de renegar o progresso,mas sinto saudades da época em que passava diariamente na loja de discos,procurando saber se tinha chegado alguma novidade relaçionada aos meus artistas preferidos.A expectativa em sí,já fazia parte do ritual.Hoje em dia,voçe já sabe o que vai acontecer antecipadamente!Não sou do tipo que manda flores,mas confesso,que sou á moda antiga!
agosto 22, 2009 em 6:13 AM
A era digital transformou o Heavy Metal em rock pesado para crianças brincando num pula-pula gigante. Não há surpresas nos riffs, não há novidades nem mesmo nas capas dos discos. Anteriormente as capas dos discos de Heavy Metal eram cultuadas por suas maravilhosas criações de arte. Eu mesmo sou fruto disso, sendo fã de Derek Riggs e detalhando cada capa desenhada por ele ao antigo Iron Maiden quando ainda criança me tornando diretor de arte de uma agência de publicidade nos dias atuais. Enfim, hoje nos resta apenas as exceções e estas por sua vez, prestes a serem “deletadas”.
agosto 26, 2009 em 12:56 PM
Acredito que a tríade do casamento duradouro Paixão/Intimidade/Compromisso pode ser aplicada pelos fãs do Heavy Metal.Com o tempo diminuem a paixão e a intimidade, mas aí vem o compromisso de manter o outro feliz. No caso do Heavy Metal,os verdadeiros fãs vão mantê-lo na berlinda.